Vapor Matta-Machado. Fotografia de Reginald Gorhan, 1927. Biblioteca Nacional Vapor Matta-Machado. Fotografia de Reginald Gorhan, 1927. Biblioteca Nacional

Maleita em Pirapora e o rio São Francisco

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Livro que voltou à cena, nestes tempo de pandemia, foi “Maleita” (1934) do escritor Lúcio Cardoso (1912-1968), nascido em Curvelo/Minas Gerais. Nesta obra de estreia, escrita aos 19 anos e publicada em 1934, o autor conta a saga de seu pai, Coronel Joaquim Lúcio Cardoso, na edificação da cidade de Pirapora, porto às margens do rio São Francisco. Durante esta missão, ele enfrentaria a maleita que assolou Pirapora. Maleita e bexiga eram nomes dados à varíola. A maleita em Pirapora chegou através do rio São Francisco.

Depósito de Algodão da Cedro e Cachoeira em Pirapora

Em 1.896, o Coronel Joaquim fora encarregado de construir e administrar em Pirapora, então povoado de São Gonçalo das Tabocas, um depósito de algodão da Companhia de Tecidos Cedro e Cachoeira, cuja sede (1872) ficava no povoado de Cachoeira, em Curvelo.

Em torno do depósito de algodão é que o povoado de São Gonçalo das Tabocas se desenvolveria. O depósito de algodão compreendia ainda um pouso de tropeiros. Houve também, no depósito, uma prisão para quem desacatasse as ordens do Coronel Joaquim, nomeado sub-delegado do distrito, a pedido da fábrica têxtil, no tempo da maleita. O fato de Joaquim Lúcio Cardoso ter sido representante do distrito de São Gonçalo é confirmado pelo jornal “O Porvir” de 21 de junho de 1901, editado em Curvelo, conforme exemplar da Hemeretoca da Biblioteca Nacional.

Pirapora e os vapores do rio

A instalação do depósito de algodão da Cedro e Cachoeira no porto da futura Pirapora se devia à navegação a vapor, então realizada segundo o autor pela Companhia Bahiana de Navegação, já então encampada pelo Lloyd Brasileiro, em 1894.

A atracagem dos vapores no porto fez de Pirapora um novo lugar. Januária, então centro comercial importante, cedeu lugar para Pirapora.

Segundo Lúcio Cardoso: “O vapor descarregava sacos de mantimentos, bagagens, malas e caixotes, animais e ferramentas. Vinha tudo misturado, arrastado pela prancha, amontoados em desordem no barranco. (pg. 56) […] Africanos, nortistas fugindo da seca, portugueses, amazonenses gastos pela selva, turcos, índios, caboclos rixentos. Os fardos de tecido chegando. Pirapora perdia aquele aspecto misto de resto de quilombo e aldeia indígena. (pg. 137)”

Vapores do São Francisco

No livro de Lúcio Cardoso são descritos os vapores Matta-Machado e Saldanha Marinho. Durante a maleita, entretanto, os vapores se recusaram a parar em Pirapora. Com isso, os moradores, em meio à peste, tinham que lidar ainda com a fome.

Na escrita de Lúcio Cardoso: “A epidemia, incubada até o momento, se abateu sobre a cidade. […] Famílias inteiras preparavam trouxas prontas para partirem quando o vapor rumasse a Januária. […] O vapor apontou, aproximou-se lentamente e passou de longe, sem se deter…. […] Pirapora estava isolada. ” (pg. 151)

Fotografias de 1927 de alguns dos vapores do rio São Francisco, de autoria de Reginald Gorhan, pertencem ao fundo da Biblioteca Nacional. Abaixo a foto do vapor “Matta Machado”, citado por Lúcio Cardoso.

Matta-Machado: um dos vapores citados por Lúcio Cardoso
Vapor “Matta Machado”. 1927. Fotografia de Reginald Gorhan. Biblioteca Nacional.

Quanto ao vapor Saldanha Marinho, há controvérsia sobre sua construção. Alguns a atribuem ao pai de Santos Dumont, o engenheiro Henrique Dumont (1830-1893), que a pedido de ex-presidente da província de Minas, Saldanha Marinho, o teria construído num estaleiro próximo a Sabará. Ao vapor Saldanha Marinho é dado o pioneirismo na navegação do rio das Velhas, pois teria sido lançado em 1871, nas proximidades de Lagoa Santa e Pedro Leopoldo – municípios criados em 1938 e 1923, respectivamente, e derivados de Santa Luzia. Mais tarde, ele teria ingressado nas águas do São Francisco.

Portos de Juazeiro a Pirapora do rio São Francisco

A legislação sobre a navegação do rio São Francisco nos ajuda a entender o trecho navegável, no alto vale, na época da narrativa de “Maleita” – primeira década do século passado. O decreto n. 9963/1912 detalhava o contrato firmado em 1906 entre a União e o governo baiano, para o trecho de Juazeiro e Pirapora.

Rezava a cláusula única do decreto:

“O contractante obriga-se a fazer: quatro viagens mensaes de ida e volta entre Joazeiro e Pirapóra com as seguintes escalas obrigatorias: Santa Anna, Casa Nova, Sento Sé, Remanso, Pilão Arcado, Chique-Chique, Icatú, Barra, Morporá, Bom Jardim, Urubú, Lapa, Carinhanha, Manga, Morrinhos, Jacaré, Januaria, S. Francisco, S. Romão, Extrema e Guaicuhy; e as seguintes escalas facultativas: Oliveira, Queimadas, Marrecas, Extrema do Urubú, Igarahy, Bôa Vista, Sitio do Matto, Malhada, Pedra da Maria da Cruz e Barra do Paracatú“.

Em negrito, os portos em território mineiro, segundo os mapas de Pirapora, São Francisco e Januária do Album Chorographico Municipal do Estado de Minas Geraes (1927).

Romance histórico

Anos depois da crise da maleita, em 1910, São Gonçalo das Tabocas adotaria o nome de Pirapora – data que coincidiu com a chegada dos trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil (E.F.C.B.). No ano seguinte, 1911, Pirapora tornaria-se município independente, desmembrado de Curvelo.

A escrita romanceada da saga do Coronel Joaquim Lúcio Cardoso, sobre a maleita em Pirapora e o São Francisco, misturando ficção a fatos históricos, é leitura importante para resgatar memórias de outros enfrentamentos dos mineiros contra as epidemias.

E ainda para entendermos melhor o papel do Velho Chico na nossa história, no primoroso texto de estreia de Lúcio Cardoso.

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