Casa de Banho Rio de Janeiro. ca. 1860 Casa de Banho Rio de Janeiro. ca. 1860

O Banho e a domesticação dos corpos

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A prática do banho diário tem sua história. Não raro, o banho foi incorporado junto a outras práticas de domesticação dos corpos, na Europa e no Brasil.

Neste breve post, vamos percorrer a história do banho. Isso porque nos tempos de pandemia, o impositivo da higiene pessoal, tendo como carro-chefe o banho, e, paradoxalmente, a dificuldade de acesso à água nas comunidades passam a ser temas do debate nacional. Ontem e Hoje.

História do Sujo e do Limpo

O jornalista Eduardo Bueno, no livro “História da Higiene Pessoal no Brasil” (2007), lembra que os portugueses aprenderam com nossos índios o hábito do banho diário.

Nessa época [século XVI], os europeus tomavam de um a dois banhos por ano, e apenas por recomendação médica”, conta Eduardo Bueno. “Eles achavam que a abertura dos poros que acontecia após o banho seria a porta de entrada para a ‘peste’ responsável por deixar tantos de cama.

Ou seja, era melhor ficar sujo do que limpo!

O historiador francês Georges Vigarello, no livro “História do Sujo e do Limpo: Uma História da Higiene Corporal” (1996) faz rememoração da prática do banho na Europa.

Para Vigarello, só no século XIX é que o banho se impôs para todos como um imperativo pedagógico:

Nesse período, diferente do século XVIII, o banho não significava tratar apenas do corpo, mas sobretudo de não subverter a ordem. Havia uma moralização da limpeza: o objetivo não era outro senão transformar os costumes dos mais desfavorecidos.”

Falta de acesso à água para o banho

Uma constante na história brasileira tem sido a dificuldade de acesso à água pro banho, notadamente para a população mais vulnerável. Ontem e hoje.

O livro da Agência Nacional das Águas (ANA), “A História do Uso das Águas no Brasil: do descobrimento ao Século XX” (2007), destaca as dificuldades de abastecimento de água nos núcleos urbanos no século XVIII ao início do XX.

Neste belo livro, é citada a observação do historiador Afonso de Taunay (1876-1958) sobre a contaminação das águas dos chafarizes e fontes públicas, nos anos 20:

“Penosa e parca distribuição de água tiveram as aglomerações urbanas até os nossos dias, com o seu sistema de chafarizes e fontes públicas alimentadas por filetes quase sempre contaminados, ou pelo menos facilmente contamináveis, expostos como se achavam a todas as poluições. Distribuição domiciliar era coisa de que se não podia cogitar. (TAUNAY, apud ANA, 2007)

Casas de Banho

Provavelmente, por esta razão foram criadas as casas de banho, em São Paulo e no Rio de Janeiro, na segunda metade dos oitocentos, como informado no livro da ANA.

A Biblioteca Nacional guarda uma fotografia estereoscópica (com visão de profundidade) de uma casa de banho na rua do Carmo, na cidade do Rio de Janeiro, datada em torno de 1860.

“Regulamento Interno dos Banheiros de Victalidade da Fábrica do Cedro”

Sob esse auspicioso título, os irmãos Mascarenhas, proprietários da Fábrica do Cedro – indústria de tecidos pioneira em Minas Gerais, criada em 1868, em Tabuleiro Grande, hoje município de Caetanópolis – impunham a prática do banho semanal a seus melhores operários. O chamado “banho de chuva” era um prêmio.

O Regulamento, datado provavelmente da segunda década do século XX – portanto – coetâneo à Gripe Espanhola (1918-1920) ? – determinava que:

Todo operário de procedimento regular e que não soffra de males infecto-contagiosos, tem direito a um banho semanal. Para isso será matriculado, recebendo um cartão de ingresso que lhe marcará hora precisa e lugar do adequado as suas condições.” (FÁBRICA DO CEDRO, s.d)

Em seus sete artigos, o Regulamento determinava os procedimentos dos usuários. Entre eles, a proibição de estender por mais que 15 minutos “o banho de chuva”. Ou seja: banho semanal e de 15 minutos. Mas quem se comportasse mal poderia ter seu banho suspenso por dois meses. Já pensou?

O Regulamento é uma peça gráfica interessante. Emoldurando os artigos, há várias citações “motivacionais”. Entre elas: “Vita ex acqua (a vida vem da água)”; “Sede sobretudo limpos e asseados” (Papa Leão XIII); “O adiantamento de um povo se mede pelo consumo de sabão” (Liebig); “Corpo são em espírito são”; “O corpo cansado faz a cabeça descansada”; “A agua e só a agua dá a bellleza e retem a mocidade”; “Para orgams dos sentidos amortecidos, para nervos exgottados, para o corpo que não desabrocha o socorro incansavel da hydrotherapia (Raspail)”.

Estudiosos da história do trabalho no Brasil daqueles anos insistem que era necessário adestrar o operário e a operária (adulto ou criança) não só para a rotina diária extenuante, mas, também para que se imbuíssem de novos comportamentos sociais, entre eles, a higiene pessoal. Mais uma etapa da domesticação dos corpos.

A foto abaixo traz a folha de rosto deste Regulamento, do arquivo da Biosconsultoria:

Regulamento Interno
Regulamento interno dos Banheiros de Victalidade na Fábrica do Cedro

Resistência à imposição das normas de higiene

Mas,por outro lado, as práticas higienistas também encontraram resistência. Mesmo no tempo da Gripe Espanhola (1918-1920), ao lado das determinações das autoridades para reforço nos cuidados pessoais, a população se insurgia contra o que entendiam como um cerceamento da liberdade. A historiadora Adriana da Costa Goulart, através da pesquisa dos jornais cariocas da época da epidemia, informa no texto “Revisitando a Espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro” (2005).

Em […] artigo de A Careta, tal posição ficava explícita quando se afirmava que a ameaça da gripe espanhola trazia um perigo bem maior, “a ameaça da medicina oficial, da ditadura científica”, pois a Diretoria Geral de Saúde Pública, “tomando providências ditatoriais, ameaçava ferir os direitos dos cidadãos com uma série de medidas coercitivas, (…) preparando todas as armas da tirania científica contra as liberdades dos povos civis” (A Careta, n. 538,12.10.1918, p. 28).

Ao mesmo assistimos hoje, com a desobediência às normas das autoridades públicas – ou de algumas delas!

Conclusão

Esse breve post sobre a história do banho pode nos servir para contextualizar aquilo que é percebido como natural. Acreditem, o banho nosso de cada dia é uma construção social a que muitos aderiram ou por gosto ou por submissão.

Quantos de nós hoje estamos revendo nossas práticas de higiene doméstica, não exatamente por gosto, mas por imposição da pandemia? Trata-se de mais uma etapa da domesticação dos corpos? Estamos esquecendo tudo o que aprendemos sobre uso racional da água?

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