Gripe Espanhola em Minas Gerais (1918-1920)

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A gripe espanhola, ou Dançarina, não era espanhola. Por quê?

A Biblioteca Nacional nos ensina que a “grippe hespanhola” ou Dançarina, pandemia que varreu o mundo entre 1918 e 1920, não surgiu na Espanha, como sugere o nome.

Seu nome é atribuído ao fato de que a Espanha, neutra durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), ter reconhecido a gripe como problema e ter permitido a divulgação de informações epidemiológicas sobre a doença.

Ao todo a gripe espanhola teria matado 300 mil pessoas no Brasil que contava com uma população estimada em 30 635 605 cidadãos.(BIBLIOTECA NACIONAL; IBGE 2020).

A Espanhola na lavra de Pedro Nava

O médico e memorialista Pedro Nava (1903–1984), no volume “Chão de Ferro”, rememora a pandemia quando estudante do Colégio Pedro II, na cidade do Rio de Janeiro. Ele tinha então 15 anos.

Além da descrição pavorosa que faz da moléstia, que inclusive abateu pessoas da família de seus tios, com quem morava, Nava vai além e nos ensina a história do nome da doença. Chamada inicialmente de Synochus catarrahis, “quando passou pela Itália (na epidemia de 1802 que tão duramente atacou Veneza e Milão) recebeu o nome que fez fortuna: influenza”.

O nome gripe veio do meio do século passado [século XIX] e foi primeiro empregado por Sauvages, de Montpellier, tendo em conta o aspecto tenso, contraído, encrespado, amarrotado – grippé – que ele julgou ver na cara de seus doentes. (NAVA, 2012, p. 244)

Mas o que sabemos sobre a gripe espanhola em Belo Horizonte?

Reportagem do jornal MG2, da Rede Globo, de 03/04/2020, em pesquisa sobre o tema, identificou que na epidemia morreram 239 pessoas e 15.000 foram infectadas na jovem capital de Minas, inaugurada há pouco mais de 20 anos, em 1897. Calcula-se, portanto, que um terço da população de 45.000 habitantes da cidade tenha sido infectado pela espanhola.

Entrevistada pelo jornal, a historiadora Heloisa Starling, estudiosa da história da escola de medicina em Belo Horizonte, informa que inicialmente a notícia da pandemia foi recebida com descrédito, pois a cidade havia sido planejada nos moldes higienistas, para evitar a concentração dos miasmas. Sim, miasmas era o nome que se dava às emanações das matérias orgânicas em decomposição, antes da descoberta dos micróbios.

Mas a epidemia chegou em BH de madrugada no trem que saíra do Rio de Janeiro, na véspera. Isso em outubro de 1918. Na estação em Belo Horizonte, desceu a família de um oficial da Vila Militar que estaria infectado. Ficaram no bairro Floresta. Após três dias chegam ao bairro, a ambulância para levá-lo ao Hospital de Isolamento e a equipe da Desinfecção da Diretoria de Higiene para realizar a limpeza da casa.

O Hospital de Isolamento, posteriormente (1927) chamado Cícero Ferreira, funcionou entre 1911 e 1965. Nos anos 70, naquele terreno foi construído o Mercado Distrital de Santa Tereza. Abaixo, fotografia do Hospital de Isolamento e da Directoria de Hygiene do Estado de Minas Gerais.

Hospital de Isolamento no bairro Santa Tereza. s/d. Fonte: web, 2020

Directoria de Hygiene do Estado de Minas Geraes. 1928
Fonte: Arquivo Público Mineiro, 2020.

Em razão da epidemia, o então prefeito, Affonso Vaz de Mello (1916-1922), mandou desinfectar diariamente os bondes; fechou o comércio; proibiu visitas ao cemitério do Bonfim no feriado de finados, para impedir aglomeração das pessoas, segundo o relato de Heloisa Starling. A população chiou.

Faculdade de Medicina de BH

Papel decisivo neste episódio teve a Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, criada em 1911, (e mais tarde, 1927, incorporada à UFMG), segundo retrospecto de um dos seus fundadores, Aurélio Pires, sobre esta instituição, publicado na Revista do Arquivo Público Mineiro, em 1927.

Nesse mesmo anno, de 1918, quando irrompeu, em Belo Horizonte, a calamitosa pandemia, da grippe hespanhola, a Faculdade de Medicina dessa cidade, sob a direcção apostolar de Cicero Ferreira [1961-1920), auxiliado por professores, alumnos, e pessoal administrativo e pessoas estranhas à mesma, transformou-se miraculosamente, em 24 horas, em bem installado hospital que recebeu em suas enfermarias 420 doentes. Foi uma página brilhantíssima, de piedade e de amor que a Faculdade esculpiu em seus annaes […]

E nas demais localidades mineiras?

Mensagem do Presidente do Estado, Arthur Bernardes, ao Congresso Mineiro, em 1919, destacava que a gripe não era o único problema a ser enfrentado, num cenário mundial conturbado, após a primeira grande guerra (1914-1918). Citava as enchentes em proporções desconhecidas; a crise causada pela morte de Rodrigues Alves (1848-1919), ex e futuro presidente da República, vitimado pela epidemia; as eleições estaduais e do Congresso Nacional; e a rebelião da Bahia que teria forçado o desvio das tropas mineiras para as divisas do norte do estado.

Para socorrer as localidades mineiras, além da capital, esforços também foram despendidos pelo governo estadual, segundo Artur Bernardes. A bem da verdade, quase nenhum. Foram enviados médicos para 40 localidades, num estado que contava com 178 municípios. Provavelmente, o governo estadual sequer conseguiu ajudar a um quarto dos municípios.

Há poucas fontes sobre o tema, mas alguns jornais locais daqueles anos, sob a guarda da Biblioteca Nacional, nos informam sobre o impacto na epidemia naquelas localidades.

Varginha

Estudo historiográfico raro sobre o tema foi feito por José Roberto Salles (2004) sobre o município de Varginha. Valendo-se dos códices dos assentos paroquiais de óbitos, do fundo do Arquivo Público municipal, ele informa que houve, na epidemia, 149 mortes no município, então constituído pelo distrito sede e pelo distrito de Carmo de Minas. As mortes ocorreram em 18 de outubro de 1918 a 21 de janeiro de 1919. O censo de 1920 informava 22.457 habitantes no município.

A classe social mais atingida foi a de baixo nível socioeconômico, constituída por lavradores e prestadores de serviços domésticos. As principais vítimas foram as crianças de ambos os sexos entre menores de um ano e 4 anos de idade (5,1%). A atitude da Câmara Municipal foi de omissão e o trabalho dos médicos, farmacêuticos e voluntários teve fundamental importância no atendimento aos doentes e suas famílias. (SALES, 2004, p. 9)

Caxambu, Cambuquira e São Lourenço e Lambari

José Roberto Salles estendeu sua pesquisa, em 2013, para as quatro instâncias hidrominerais do Sul de Minas. À época, Caxambu, Cambuquira, São Lourenço e Lambari eram muito visitadas pelas elites, notadamente pelos políticos, atraídos pelos poderes medicinais de suas águas minerais.

O autor conclui que:

Das quatro estâncias hidrominerais do atual Circuito das Águas de Minas Gerais, Cambuquira foi a que, segundo os registros cartoriais, apresentou o maior número de óbitos por gripe espanhola e o segundo maior período epidêmico, o qual teve a duração de 157 dias. O total de óbitos – 91 – é maior que o da soma das outras estâncias pesquisadas: Caxambu (25), Lambari (49) e São Lourenço (11). Além disso, foi somente em Cambuquira que a gripe espanhola teve início ainda na última semana de setembro de 1918. Nas demais, a epidemia teve início em outubro (Caxambu, São Lourenço) ou novembro (Lambari). (SALLES, 2013)

Ouro Preto

Em 25 de dezembro de 1918, o jornal “Ouro Preto”, informava que a gripe teria atingido 4.000 pessoas e causou a morte de 71. O grupo escolar transformou-se em Posto de Assistência aos pobres. Em 1920, Ouro Preto teria 51.136 habitantes distribuídos entre seus 18 distritos.

Ponte Nova

O “Correio da Semana”, de Ponte Nova, em edição de 23 de fevereiro de 2010, registrava 362 óbitos durante a gripe. Mas questionava os dados oficiais, em razão da “deficiência dos registros mortuários e da imperfeição dos diagnósticos”. O censo de 1920 informava uma população de 62.666 habitantes para todos o município.

Contagem

Sob o título “A Epidemia de Grippe na Villa de Contagem”, o jornal “O Movimento”, em 19 de janeiro de 1919, trazia o memorial do presidente da Câmara, Augusto Teixeira Camargos, sobre os esforços demandados para obter ajuda das autoridades estaduais.

Ao telegrama por ele enviado à Diretoria de Higiene em Belo Horizonte, obteve a seguinte resposta do Dr. Levi Coelho:

Impossível atender. Pedidos chegam de todo estado. Falta absoluta médicos e medicamentos. Governo confia municipalidades nesta situação. (O MOVIMENTO, 19 jan. 1919 apud BIBLIOTECA NACIONAL, 2020)

Foram registrados 1.600 gripados e 65 mortes no município, que em 1920 contaria com 12.140 habitantes.

Juiz de Fora

A obra “Ephemerides Juiz-foranas (1698-1965)” do jornalista Paulino de Oliveira traz a informação que houve 423 mortes, pela gripe espanhola, entre 23 de outubro e 3 de dezembro de 1918, em Juiz de Fora. Em 1920 haveria 118.155 habitantes nos 13 distritos que compunham o município.

Uberaba

O cronista do Jornal Lavoura e Comércio, de Uberaba, de 20 de outubro de 1918 informava que 2/3 da população da cidade ficara infectada. Houve 285 mortos. A população em 1920 seria de 59.87 habitantes distribuídos por seus quatro distritos.

Panaceia contra a gripe espanhola

Os jornais de Minas também traziam as propagandas de remédios para combater a moléstia.

O jornal Cidade de Prata, de 1919, publicou reclame da Euceina Werneck “cura rápida e garantida para influenza, grippe e constipação”. Edição do jornal “Sul Mineiro” do mesmo ano recomendava para a convalescença da gripe espanhola a Emulsão de Scott.

“Pão de Santo Antonio”, jornal de Diamantina, em 1919, trazia restrições alimentares para a cura da gripe espanhola. Vejam:

Durante a febre o doente não deve comer coisa alguma, ficam prohibidos o leite e os caldos de galinha ou de carne; só poderá beber água fria com ou sem doce, chá da índia, café, matte, herva cidreira; chá de campim cidra; chá de folhas de laranjeira. […] depois de passada a febre não poderá comer mingaus e arroz mole. (PÃO DE SANTO ANTONIO, 17 nov. 1919)

Pedro Nava, em retrospectiva, ironiza a medicação do quinino “que logo reinou com a potestade que vemos hoje outorgada aos antibióticos, aos anti-inflamatórios, aos corticosteroides. […] Fórmulas industriais bestas fizeram verdadeiras fortunas”. (NAVA, 2012, p. 248)

Nava conta ainda da vacinação jenneriana [base da imunização atual, desenvolvida por Edward Jenner, o “pai” da imunologia], para a qual o governo abriu postos de vacinação no Rio de Janeiro:

[…] onde a aglomeração, com as distribuidoras de leite, de alimentos e as procissões imensas de São Sebastião, das Irmandades de Nossa Senhora das Dores e São Pedro da Gamboa – só serviam para juntar gente, para favorecer o contágio. (NAVA, 2012, p. 248)

A Espanhola e a Covid-19

A história nos ensina muito pouco, pois cada época tem seu contexto próprio. E as versões sobre o passado são múltiplas e nem sempre coincidentes. O que a história pode é nos ajudar a expandir nosso olhar sobre o presente tendo como referência o que se pergunta ao passado.

Respeitadas as diferenças de escala, os contextos da pandemia em 1918 e de hoje trazem algumas semelhanças em Minas Gerais, ao que sugerem as fontes: instabilidade política; ineficiência do Estado; desinformação da população; fé em remédios miraculosos; e destaque para as ações humanitárias da sociedade civil.

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