Prédio Aurélio Lobo Prédio Aurélio Lobo

Principais Especuladores Imobiliários de Belo Horizonte (1895-1931)

6 minutos para ler

Uma frase que define o homem de negócios … Zé dos Lotes explicava as razões de seu êxito na vida, dizendo pitorescamente “Comprei lotes de quem pensava que Belo Horizonte nunca passaria de Curral del Rey e vendi para os que supunham que a cidade em breve seria Nova York”.  (ESTADO DE MINAS, 1950, p. 10 apud ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO, 2019)

Além do famoso Zé dos Lotes – José Francisco de Macedo – tido como o maior especulador imobiliário de Belo Horizonte, quem teriam sido os demais grandes negociantes do espaço urbano, nos primeiros anos da Capital?

A pesquisa do Índice de Lotes Urbanos do APCBH indica outros personagens, além do Zé dos Lotes, que fizeram da cidade um dos seus negócios. E mais: quantifica e identifica tais lotes.

A lista abaixo mostra os cinco maiores proprietários de lotes, segundo a fonte estudada.

  • José Francisco de Macedo: 150 lotes
  • Antônio Antunes de Almeida: 111 lotes
  • Aurélio Lobo: 86 lotes
  • Felicíssima de Paula Teixeira: 69 lotes
  • José Benjamin: 64 lotes

1. Zé dos Lotes

Neste ranking, Zé dos Lotes aparece de fato em primeiro lugar, com 150 incidências no índice, entre 15/05/1897 – a capital seria inaugurada ao final deste mesmo ano – e 21/11/1919, cumprindo 22 anos de especulação. Registre-se que, além dos lotes urbanos, ele adquiriu ainda muitos suburbanos – tema este não inserido no presente estudo.

Abílio Barreto, o grande historiador de Belo Horizonte, já lembrava que Zé dos Lotes, ainda em novembro de 1895, junto com outros homens de negócio, visitava o Curral del Rey, “percorrendo os pontos principais da localidade, a fim de escolherem os terrenos para as casas que pretendiam construir”. (BARRETO, 1936, p. 462).

Na crônica comemorativa do aniversário de 60 anos da cidade, em 1957, Drummond reverencia o tino de Zé dos Lotes para o “gordo negócio imobiliário”

Decerto, não mudaste, cresceste e ameaças crescer mais, crescer sempre; e não errou aquele Zé dos Lotes, lembras-te? De caroço no pescoço, que em teu alvorecer prefigurou o gordo negócio imobiliário” (DRUMMOND, 1957)

Não por acaso, houve uma lei municipal específica, para prorrogar o prazo para edificação urbana, a favor dele. A lei n. 128/1917 fazia-lhe esta mercê e a mais quatro proprietários (entre eles, D. Virginia Monteiro Fernandes – proprietária dos lotes onde mais tarde foi edificada a casa da rua Bernardo Guimarães, 441, onde funciona a Biosconsultoria).

2. Antonio Antunes de Almeida

Sobre o segundo colocado no ranking, Antonio Antunes de Almeida, não se obtiveram mais dados. São deles 111 lotes da XIV seção, mas o índice tampouco informa a data das transações. Esta seção urbana fica nas imediações da Estação Ferroviária.

3. Aurélio Lobo

Aurélio Lobo (1871 – ?), classificado em terceiro lugar, com 86 incidências no Índice, é um personagem e tanto. Engenheiro e construtor, abriu no ainda Curral del Rey, uma loja de secos e molhados, em 1895. Mais tarde, fundaria com Francisco Soucassaux (1856-1904), “a empresa construtora F. Soucassaux e Cia. Participou da construção de vários prédios em Belo Horizonte, como o do antigo Forum (1897/98), atual Instituto de Educação [hoje Universidade do Estado de Minas Gerais]” (IEPHA, 1997, p. 141)

Aurélio Lobo construiu o primeiro arranha-céu de Belo Horizonte, na avenida Amazonas, esquina com rua dos Caetés. Hoje o prédio leva o nome do construtor e abriga o Hotel Sulamérica Palace.

Edifício Aurélio Lobo, primeiro arranha-céu de Belo Horizonte

As 86 incidências de Aurélio Lobo no Índice vão de 24/09/1896 a 07/06/1926. Foram 30 anos de especulação imobiliária. Não, por acaso, Aurélio Lobo exerceu o cargo de tesoureiro da Prefeitura Municipal, entre 1909 e 1926, segundo o Almanak Laemmert.

A ele, desde esta época, deve Belo Horizonte boa parte do seu progresso, como construtor, como tesoureiro da Prefeitura e como proprietário. (BARRETO, 1936, p. 660)

4. Felicissima de Paula Teixeira

Dona Felicíssima de Paula Teixeira Magalhães é citada 66 vezes no Índice. A primeira incidência é de 28/09/1899 e a última de 05/07/1920. Cerca de 59 lotes referem-se apenas ao quarteirão 1 e ao 2 da XIV seção urbana. Esta seção fica nas proximidades da Praça da Estação, como já informado.

Era casada com o advogado Antônio Teixeira de Siqueira Magalhães. Segundo o livro “Memória das Ruas. Dicionário Toponímico de Belo Horizonte” (GOMES, 1992), a rua Teixeira Magalhães, antiga rua Aiuruoca, na Floresta, seria uma homenagem ao marido de D. Felicíssima. Com apenas um quarteirão, esta rua começa na avenida do Contorno n. 1610 e acaba na rua Itajubá n. 294. “É mais uma das vias públicas surgidas em decorrência das modificações por que passou a XIV zona urbana”

[…] ao se enviuvar [década de 20), D. Felicíssima abriu uma rua na propriedade da família, adquirida em 1908 de Antonio de Almeida, tendo mandado construir vários chalezinhos para alugar, hoje já demolidos ou reformados. (Idem, ibidem) (grifo nosso)

O Antonio de Almeida citado, por certo, é o aqui identificado como segundo colocado no ranking dos maiores proprietários de lotes.

O fragmento da Planta Geral da Cidade de Belo Horizonte de 1929 destaca a fragmentação do quarteirão 1 e 2 da XIV seção urbana e sua proximidade à Praça Ruy Barbosa. Mostra ainda a rua Ayuruoca, hoje rua Teixeira Magalhães.

Fragmento da Planta Geral da Cidade de Belo Horizonte. 1929.

5. Coronel José Benjamin

Com 64 incidências no Índice, José Benjamin ou Coronel José Benjamin é citado entre 14/10/1895 e 29/08/1916. Foi o construtor do primeiro sobrado na nova Capital, em 1896, segundo Abílio Barreto. Este sobrado ficava no quarteirão 19 da 1ª seção urbana, que corresponde àquele formado pelas ruas São Paulo, Caetés, Curitiba e avenida do Comércio (hoje, avenida Santos Dumont).

Seria proprietário de uma indústria de fumo. Foi membro do Conselho Deliberativo de Belo Horizonte entre 1903 e 1908 e presidente da Junta Comercial entre 1905 e 1908, segundo o Almanak Laemmert.

Em conclusão

A análise do Índice de Lotes Urbanos permitiu que se identificassem os cinco principais proprietários do espaço de Belo Horizonte, com base em fontes primárias, entre 1895 e 1931. Além do exercício matemático de aferição do número de lotes por pessoa, foi possível ainda, ao se pesquisar as biografias dos proprietários, entender um pouco melhor a proximidade entre as atividades públicas e os negócios imobiliários, na jovem capital mineira.

Posts relacionados

Deixe um comentário