Memória urbana de Belo Horizonte: Indústrias nos anos 20

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A memória urbana de Belo Horizonte agora tem uma boa fonte primária para pesquisas. A história das indústrias instaladas nos lotes urbanos nos anos 20 – tema ainda pouco estudado – pode ser pesquisada através do Índice de Lotes Urbanos (1895-1931) do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte (APCBH) – cuja revisão foi mais um projeto cultural da Bios Consultoria . Como resultado, identificou-se uma concentração de leis municipais para favorecer a cessão de lotes para a instalação de indústrias, na zona urbana da nova Capital. Zona urbana é aquela circunscrita pela avenida do Contorno – antiga avenida 17 de dezembro.

Certamente, a instalação de indústrias no perímetro urbano feria o projeto original do engenheiro Araão Reis que organizara usos distintos para o espaço urbano e suburbano – na planta geral da Cidade de Minas. Ou seja, em princípio, as indústrias ficariam na zona suburbana e não na urbana. Mas não foi bem assim.

Grande parte das leis municipais que concediam lotes urbanos às indústrias se concentrou na gestão do prefeito Flávio Fernandes dos Santos (1922-1926). Houve nove leis neste sentido. Algumas citavam, além dos industriais beneficiados, os respectivos lotes que lhes seriam concedidos, através de “venda”; ou “concessão”; ou “concessão de terrenos independente de hasta pública” .

Pareceres do Conselho Deliberativo de Belo Horizonte (antiga Câmara Municipal), desse período, disponíveis no Arquivo Público Mineiro (APM), analisavam algumas petições e as justificativas dos industriais para obtenção desses lotes urbanos.

Gestão de Flávio Fernandes dos Santos e a indústrias

O prefeito Flávio Fernandes dos Santos, através dos relatórios enviados ao Conselho Deliberativo, destacava o esforço da Prefeitura para favorecer a indústria na cidade, após a recessão imposta pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e pela gripe espanhola (1918-1920).

Em seu último Relatório ao Conselho Deliberativo referente ao biênio 1924-1925, datado de 7/10/1925, ele informava que entre setembro de 1924 e agosto de 1925, dos 156 lotes cedidos pela Prefeitura, a título gratuito ou oneroso, 74 (48%) o foram para fins industriais. Mas, não esclarece se tais lotes eram urbanos ou não.

Magnavacca & Filhos e a Fundição Moderna

As nove leis municipais estudadas citam 42 industriais, individualmente ou em duplas. Alguns deles foram favorecidos por mais de uma norma legal. Por exemplo, a “fábrica de artefatos de ferro” e mais tarde “indústria siderúrgica” Magnavacca & Filhos, localizada à rua Rio Grande do Sul, n. 178. Cinco leis, entre 1916 e 1924, foram especificamente feitas para concessão de lotes urbanos a esta empresa. Entre elas, a lei n. 236/1922 que lhe concedeu cinco lotes do quarteirão 20 da II seção urbana. Mas, em 1916 – na gestão de outro Prefeito – ele já havia ganho quatro lotes no mesmo quarteirão.

Fundição Moderna (1909) é o nome da indústria dos Magnavacca. Segundo Lígia Pereira, estudiosa do tema da contribuição dos italianos para a indústria em Minas Gerais, “é impossível falar em atividade industrial em Belo Horizonte no início do século XX sem mencionar a família Magnavacca

A indústria tinha um alto-forno, fazendo ferro gusa e fundição de peças, além da indústria mecânica. Fazia moendas de cana, britadores, arados, vagonetas, inclusive para a rede ferroviária e vagonetas para mineração. A parte de serralheria também foi muito importante. Nos anos 1920, Enéa José se associou aos filhos, Hamleto e Arcangelo, e o empreendimento passou a se chamar Fundição Moderna – Magnavacca & Filhos. As empresas dos Magnavacca fizeram muitos trabalhos na cidade. Até hoje, ainda se vê nas ruas da cidade peças para boca de lobo, tampas de esgoto, caixas de hidrômetros, principalmente na Savassi e no bairro de Lourdes, com o nome da Magnavacca & Filhos. (PEREIRA, s/d; p. 8)

Fábricas de balas, biscoitos, meias, roupas de crianças, etc.


Qual tipo de indústria solicitava lotes urbanos à municipalidade, entre 1922 e 1926? Hoje, seriam classificadas como de bens de consumo e da construção civil.

Havia pedidos de lotes urbanos para instalação ou ampliação de tipografias e litografias; lavanderia modelo; matadouros e galinheiro “modelos”; laticínios; ornamentos de mármore; beneficiamento de fumo; de milho e de cereais; de massas alimentícias; fábrica de balas e de biscoitos; de chapéus e sapatos; de flores artificiais; de meias; de roupas para crianças; oficina cinematográfica; adubos químicos. Teve um pedido para instalação de um estacionamento e conserto de carros. E outro para fabricação de transformadores, por depositários da Companhia Brasileira de Eletricidade Siemens Schuckert S.A.

Indústrias da Construção Civil

Mas a incidência mais recorrente na série analisada era das indústrias de construção civil, na jovem capital que ainda se edificava. Por exemplo, o italiano Agostinho Provenzano era dono de uma carpintaria e marcenaria na rua da Bahia, n. 1030. O italiano Sylvio Pirani tinha uma marcenaria na rua Tupinambás, n. 438. Os italianos Domingos Gatti e Jacomo Romanizio, donos de olaria, foram beneficiados pelas leis n. 261 e n. 302. Octaviano Lapertoza e Salvador Impellizieri, os irmãos Aristóteles e Sócrates Faria Alvim, os irmãos João Ricaldoni Filho e Domingos também eram construtores, entre outros citados na legislação.

Chama atenção ainda um personagem – também industrial da construção civil – que havia sido proprietário, entre 1921 e 1923, dos lotes onde se edificaria, em 1938, a casa da rua Bernardo Guimarães 441, sede da Bios Consultoria: o engenheiro José da Silva Brandão (1881-1935), já devidamente citado no texto Memória Urbana de Belo Horizonte: a casa da rua Bernardo Guimarães, 441.

Ele seria beneficiado especificamente pela concessão autorizada pela lei n. 274/1924. Em requerimento ao Conselho Deliberativo, de 3/3/1924, José da Silva Brandão solicita quatro lotes contíguos e, se possível, próximos à Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB) nos quais possa fazer as instalações da “Companhia Constructora Minas Geraes […] em que funcionem industrialmente as diversas artes elementares, como sejam, serraria, carpintaria, marcenaria, serralheria, vidraçaria, fábrica de materiais moldados de cimento, concreto, gesso, etc ” (Códice 12. CDBH. APM)

Italianos e a Indústria de Belo Horizonte

Comprovou-se, ainda neste estudo, a marcante presença dos italianos no processo de industrialização de Belo Horizonte, entre 1922 e 1926, notadamente no espaço urbano – recorte da presente análise. No índice, há de fato uma sucessão de sobrenomes como: Villani; Vartulli; Mourthé; Minardi; Lapertoza; Impelizieri, e tout quanti.


A pesquisa histórica, em que pesem suas limitações, permitiu um entendimento mais acurado sobre a memória urbana de Belo Horizonte, nos anos 20, notadamente sobre a indústria dentro da avenida do Contorno. Trabalhou-se com fontes primárias. Trata-se de mais um produto do projeto de revisão do Índice de Lotes Urbanos do APCBH.

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